A adequada dimensão da carga tributária é pressuposto do respeito à cidadania e não deve submeter-se a modelos que minimizam, ou mesmo ignoram, a distribuição mais equânime da renda, nem aos estreitos moldes da globalização. O interesse em viabilizar, a qualquer preço, a integração competitiva do Brasil no mercado internacional acaba onerando o mercado interno, sobre o qual recai uma tributação excessiva.

            A proposta de simplificação do sistema, com o objetivo de reduzir o famoso custo-Brasil, é tentadora, mas pode ser enganosa. A redução dos impostos que oneram as exportações coloca em risco o próprio modelo federativo, quando, a fim de facilitar os tratados internacionais, a União ameaça intervir na área de competência dos estados, ferindo sua autonomia.

            O Sistema Tributário de uma nação reproduz o confronto das forças que atuam em seu contexto social, e qualquer mudança que nele se faça não produzirá um sistema muito diferente se não houver, paralelamente, mudança na correlação dessas forças. Ele poderia ser, talvez, tecnicamente mais adequado ao momento econômico, mais moderno, mas não seria socialmente mais justo. Para isso, é necessário, de um lado, que a sociedade exerça controle sobre o Fisco, manifestando-se sobre a gestão dos recursos públicos, em uma demonstração efetiva de cidadania, e de outro, que o Fisco atue com seriedade e eficácia, dando cumprimento à norma tributária, em uma atitude de respeito ao cidadão e em defesa da ética social.

            As alterações do sistema tributário devem ocorrer dentro de um quadro de compromisso social. O próprio governo deve estimular o amplo debate das questões tributárias com os diversos setores da sociedade, envolvendo trabalhadores e empresários (urbanos e rurais), estudantes, intelectuais,  profissionais, donas de casa e toda a reserva hoje conhecida como os "sem" - terra, teto, emprego, escola, saúde. Um sistema tributário elaborado a partir de amplo debate, incorporando as propostas dos diversos segmentos sociais, vai retratar mais fielmente a sociedade, comprometer a todos e resgatar o papel do tributo como instrumento de justiça social e de garantia de liberdade.

            Somente a postura crítica e participativa dos cidadãos pode levar à correta definição do tamanho e do alcance do  Estado. E apenas eles podem decidir o quanto estão dispostos a pagar em troca de sua condição de cidadãos, controlando e cobrando a atuação condizente dos governos.

Ivone Rotta Pereira. A tributação na história do Brasil. Moderna, 1999, p. 96-97 e 103 (com adaptações).

Em relação às idéias e estruturas do texto, julgue o item a seguir.

Trata-se de um texto expositivo, em que apenas se esclarece o leitor acerca de conceitos do sistema tributário, sem asserções de caráter avaliativo ou propositivo.