Tipos de discurso (Direto, Indireto e Indireto Livre)
Freud, o peixeiro e os excluídos
 
Há anos compro peixe na mesma feira com o mesmo peixeiro. Disse a ele outro dia: Quando crescer, quero ser peixeiro. Devolveu a provocação: "Boa escolha, professor. É a profissão do id." Fiquei uma semana intrigado. Enfim, um peixeiro freudiano no Rio de Janeiro! Um analista excêntrico que tem por hobby limpar escamas! Na feira seguinte, perguntei: Ok, peixeiro é a profissão do id. Mas como assim? "O professor não conhece a Bíblia? Cristo precisava de apóstolos, chamou os pescadores e disse: Ide e pregai o evangelho a toda criatura!".

Um sujeito bem intencionado quer dizer uma coisa, o freguês entende outra. Quando dizemos "direitos humanos", por exemplo, o que entendem os peixeiros, torneiros mecânicos, políticos profissionais, investigadores de polícia, personal trainings e membros de outras profissões? Não sabemos, mas deveríamos.

A luta social não acontece só na "política" - partidos, parlamentos, sindicatos etc. Acontece também no interior da linguagem. Os desentendimentos por causa das palavras são, às vezes, desentendimentos sociais.

Não se sabe, por exemplo, quem inventou a palavra "excluídos" para designar pobres. Os movimentos sociais incorporaram a palavrinha sem refletir. A criança que não tem escola - está "excluída" da escola. O trabalhador que não tem emprego - está "excluído" do emprego. A palavra designa um fato real, mas o que quer dizer? Que a sociedade tem um lado de dentro e outro de fora. Como se fosse um trem correndo pela Baixada Fluminense (digamos): nós que estamos dentro olhamos pela janela e vemos as casas e pessoas que estão de fora.

Acontece que a sociedade não é um trem que corre pela Baixada. A sociedade é o trem e as pessoas que vemos pela janela do trem. A sociedade não tem lado de fora. O que está fora da sociedade seria desumano, pois ela nada mais é que a relação entre os humanos. Não formamos sociedade com os cães, os mosquitos, os micos-leões-dourados. A única possibilidade de um ser humano ser excluído dela é deixar de ser humano. Até mesmo a nossa relação com a natureza e os bichos se faz por meio da sociedade.

O leitor já viu onde quero chegar. Chamar alguém de "excluído" é lhe retirar a condição de humano. Ora, os movimentos sociais, que lutam para estender os direitos humanos a todas as pessoas, querem precisamente o contrário: querem humanizar ricos e pobres, negros e brancos, homens de bem e criminosos, bonitos e feios. Como é então que usam, e abusam, da palavra "excluídos"? Como é que admitem que a sociedade tem um lado de dentro (onde estão os incluídos) e um lado de fora (onde estão os "excluídos")? Como é que se deixam enredar por esse pântano de palavras, a ponto de negar com a boca o que fazem com o coração?

Alguém os enredou. Quem foi? Talvez o Polvo de Vieira. "O polvo, escurecendo-se a si, tira a vista aos outros, e a primeira traição e roubo que faz é a luz, para que não se distinga as cores". Não é inocente chamar os explorados de nossa sociedade de "excluídos". Primeiro, porque, sutilmente, se está negando aos pobres a humanidade que os outros teriam. Segundo porque se está desvinculando a pobreza ("exclusão") da riqueza ("inclusão"). Por esse modo de pensar, aparentemente inocente, os ricos nada têm a ver com os pobres. Estes são problema do governo, "que devia dar escola, saúde e segurança aos excluídos" e dos políticos "que só sabem roubar".

Temos até hoje feira de trabalhadores: centenas de homens fortes acocorados esperando o "gato" selecionar os que vão trabalhar. O salário obedece à lei da oferta e procura: sobe se os acocorados forem poucos, desce se forem muitos.

Como lidar com o número crescente de pessoas que nascem, vivem e morrem sem trabalho? O Brasil inventou várias "soluções" para esse problema do desenvolvimento. Uma delas foi o padrão popular de acumulação: o Se Virar. Os que se viram não estão excluídos de nada. Pertencem a um padrão de acumulação que compete há cem anos com o padrão capitalista.

Na minha feira, há muitos vendedores de limão. Alguns vendem outras coisas. São "excluídos"? Produzem maisvalia como qualquer outro proletário. Desejam roupas, tênis, bailes, prestígio, mulheres de revista, adrenalina, alucinação. Têm desejos e compram a sua satisfação possuindo a imagem (ou a simulação) dos objetos do desejo. Se tiverem competência e sorte, se tornarão vendedores de objetos (como limão) ou de sensações (como cocaína). Alguns abraçarão a profissão do Ide. De um jeito ou de outro, todos estão incluídos.

(Adaptação do texto de SANTOS, Joel Rufino dos. Jornal do Brasil, domingo, 11/03/2001.)

Sobre o emprego do discurso direto no primeiro parágrafo do texto, é correto afirmar que:
Senhores:

Investindo-me no cargo de presidente, quisestes começar a Academia Brasileira de Letras pela consagração da idade. Se não sou o mais velho dos nossos colegas, estou entre os mais velhos. É simbólico da parte de uma instituição que conta viver, confiar da idade funções que mais de um espírito eminente exerceria melhor. Agora que vos agradeço a escolha, digo-vos que buscarei na medida do possível corresponder à vossa confiança.

Não é preciso definir esta instituição. Iniciada por um moço, aceita e completada por moços, a Academia nasce com a alma nova e naturalmente ambiciosa. O vosso desejo é conservar, no meio da federação política, a unidade literária. Tal obra exige não só a compreensão pública, mas ainda e principalmente a vossa constância. A Academia Francesa, pela qual esta se modelou, sobrevive aos acontecimentos de toda a casta, às escolas literárias e às transformações civis. A vossa há de querer ter as mesmas feições de estabilidade e progresso. Já o batismo de suas cadeiras com os nomes preclaros e saudosos da ficção, da lírica, da crítica e da eloqüência nacionais é indício de que a tradição é o seu primeiro voto. Cabe-vos fazer com que ele perdure. Passai a vossos sucessores o pensamento e a vontade iniciais, para que eles os transmitam também aos seus, e a vossa obra seja contada entre as sólidas e brilhantes páginas da nossa vida brasileira. Está aberta a sessão.

(ASSIS, Machado. Discurso inaugural, na Academia Brasileira, aos 20 dias do mês de julho de 1897. Obra completa, vol.III, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1997, p.926)

Agora que vos agradeço a escolha, digo-vos que buscarei na medida do possível corresponder à vossa confiança.

A fala acima está corretamente reportada da seguinte maneira: Machado de Assis declarou que,

[14 de fevereiro]

Conheci ontem o que é celebridade. Estava comprando gazetas a um homem que as vende na calçada da Rua de S. José, esquina do Largo da Carioca, quando vi chegar uma mulher simples e dizer ao vendedor com voz descansada:

− Me dá uma folha que traz o retrato desse homem que briga lá fora.

− Quem?

− Me esqueceu o nome dele.

Leitor obtuso, se não percebeste que "esse homem que briga lá fora" é nada menos que o nosso Antônio Conselheiro, crê-me que és ainda mais obtuso do que pareces. A mulher provavelmente não sabe ler, ouviu falar da seita de Canudos, com muito pormenor misterioso, muita auréola, muita lenda, disseram-lhe que algum jornal dera o retrato do Messias do sertão, e foi comprá-lo, ignorando que nas ruas só se vendem as folhas do dia. Não sabe o nome do Messias; é "esse homem que briga lá fora". A celebridade, caro e tapado leitor, é isto mesmo. O nome de Antônio Conselheiro acabará por entrar na memória desta mulher anônima, e não sairá mais. Ela levava uma pequena, naturalmente filha; um dia contará a história à filha, depois à neta, à porta da estalagem, ou no quarto em que residirem.
 
(Machado de Assis, Crônica publicada em A semana, 1897. In Obra completa, vol.III, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1997, p. 763)

Se o cronista tivesse preferido contar com suas próprias palavras o que a mulher disse ao vendedor, a formulação que, em continuidade à frase ... quando vi chegar uma mulher simples e pedir ao vendedor com voz descansada, atenderia corretamente ao padrão culto escrito é:

É claro que o entendimento das metas propostas assume importantes posições no estabelecimento do sistema de formação de quadros que corresponde às necessidades. Desta maneira, a execução dos pontos do programa causa impacto indireto na reavaliação de todos os recursos funcionais envolvidos. O empenho em analisar o comprometimento entre as equipes facilita a criação do retorno esperado a longo prazo.
Todavia, a estrutura atual da organização maximiza as possibilidades por conta dos paradigmas corporativos. Por outro lado, o desenvolvimento contínuo de distintas formas de atuação estende o alcance e a importância dos índices pretendidos.
Não obstante, a constante divulgação das informações pode nos levar a considerar a reestruturação do levantamento das variáveis envolvidas. Desta maneira, a adoção de políticas descentralizadoras causa impacto indireto na reavaliação dos métodos utilizados na avaliação de resultados. No entanto, não podemos esquecer que a contínua expansão de nossa atividade ainda não demonstrou convincentemente que vai participar na mudança das novas proposições.
O empenho em analisar o consenso sobre a necessidade de qualificação estimula a padronização das diretrizes de desenvolvimento para o futuro.