Conceitos de cidadania
Uma das razões para nossas dificuldades na direção da cidadania pode ter a ver com a natureza do percurso que fizemos. No Brasil, primeiro vieram os direitos sociais, implantados em período de supressão dos direitos políticos e de redução dos direitos civis por um ditador que se tornou popular. Depois vieram os direitos políticos, de maneira também bizarra. A maior expansão do direito de voto deu-se em outro período ditatorial, em que os órgãos de representação política foram transformados em peça decorativa do regime. Finalmente, ainda hoje muitos direitos civis continuam inacessíveis à maioria da população. A pirâmide dos direitos foi colocada de cabeça para baixo.

Essa inversão traz conseqüências, sobretudo para o problema da eficácia da democracia. Uma importante é a excessiva valorização do Poder Executivo. Essa orientação para o Executivo reforça longa tradição portuguesa, ou ibérica, o patrimonialismo. Nessa visão, a ação política é sobretudo orientada para a negociação direta com o governo, sem passar pela mediação da representação. Ligada à preferência pelo Executivo está a busca por um messias político. Além da cultura política estatista, ou governista, a inversão favoreceu também uma visão corporativista dos interesses coletivos. A força do corporativismo manifestou-se mesmo durante a Constituinte de 1988. A ausência de ampla organização autônoma da sociedade faz que os interesses corporativos consigam prevalecer.

José Murilo de Carvalho. Cidadania no Brasil: o longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, p. 219-23 (com adaptações).

Tendo o texto acima como referência inicial e considerando os múltiplos aspectos concernentes ao tema por ele abordado, presentes no processo histórico brasileiro, julgue o item seguinte.
 
Ao destacar a inversão cronológica verificada no Brasil quanto à adoção dos direitos, o texto sugere comparação com outra referência teórica, de largo conhecimento acadêmico. No caso, trata-se da lógica da seqüência descrita por T. A. Marshall, autor que desenvolveu a distinção entre as várias dimensões da cidadania.
O conceito de cidadania se consolidou durante a Revolução Francesa, associado aos direitos da burguesia. Cidadão era então o burguês (proprietário dos bens de produção) do sexo masculino e habitante da cidade. Como decorrência das lutas sociais, o conceito se ampliou para se vincular à questão dos Direitos Humanos – a mais formidável conquista social da humanidade, expressa na famosa Declaração da O.N.U. em 1948. Como consequência dessa ampliação, pode-se afirmar que
Numere a COLUNA II de acordo com a COLUNA I, associando as dimensões de cidadania e política apresentadas às respectivas conceituações.
 
COLUNA I

1. Cidadania política
2. Política social
3. Cidadania social
4. Cidadania civil
 
COLUNA II
 
(  ) direitos que possibilitam a participação igualitária dos membros de uma sociedade nos seus padrões básicos de vida.

(  ) direitos que asseguram o exercício da capacidade de influir nas decisões políticas, seja diretamente por meio de atividade governamental ou associativa, seja indiretamente, por meio do voto.

(  ) conjunto de decisões e ações relativas à alocação de recursos públicos visando mitigar ou eliminar desigualdades permanentes e auto-reproduzidas, bem como assistir e fortalecer os segmentos mais vulneráveis da sociedade.

(  ) direitos necessários ao exercício da liberdade individual, como, por exemplo, o de ir e vir, de contratar, de empreender e de possuir propriedades.
 
Assinale a alternativa que apresenta a sequência de números CORRETA.
No processo histórico de construção do Estado moderno, é importante levar em conta o papel desempenhado pelas lutas sociais e políticas e pelo movimento operário para a conquista de diversos direitos. Como exemplos destes, é possível citar:
 
(1) a noção de que “todos os homens são iguais perante a lei”, defendida durante a Revolução Francesa, no século XVIII;
 
(2) o direito ao voto universal, bandeira do movimento cartista inglês no século XIX;
 
(3) o direito a férias e aposentadoria, conquistado pelo movimento operário em diversos países, especialmente no século XX.
 
Esses direitos exemplificam, respectivamente, o que o sociólogo britânico T. H. Marshall (1893-1981) define como
A moderna noção de cidadania emergiu do liberalismo do século XVIII e definiu orientações e preceitos que gradualmente permitiriam a incorporação dos direitos civis, políticos e sociais ao cotidiano dos cidadãos, sendo seus marcos jurídicos principais a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789) e a Constituição Americana (1787). Considere as afirmativas abaixo a respeito desse novo contexto.

I. Os direitos políticos que emergiram nesse período relacionam-se com as garantias materiais dos cidadãos, enquanto os direitos civis referem-se às relações entre os indivíduos e o Estado, e os direitos sociais, por sua vez, correspondem às garantias individuais, como a liberdade de culto.

II. A obra que sintetizou esse momento de expansão liberal dos direitos dos cidadãos foi o Leviatã de John Locke.

III. Surge pela primeira vez a concepção segundo a qual todo cidadão é um sujeito de direitos, ou seja, tem direito a ter direitos, e lhe é assegurada a participação social e política numa dada comunidade.

IV. A conquista e extensão dos direitos da cidadania ocorreu aos poucos, estritamente devido às concessões das classes dominantes.

V. Ao conceito de cidadania correspondia um conceito de democracia diferente da antiga democracia dos gregos, pois, ao contrário desta, o poder deveria ser exercido indiretamente pelo povo por meio de seus representantes eleitos.

Está correto o que se afirma APENAS em